Prof. Michel Kobelinski defende tese de doutorado que trata das “Sensibilidades” no Brasil Colonial

 

        Fruto de sacrifícios e de exultações, da conciliação entre as atividades docentes, administrativas e da investigação historiográfica, o professor Michel Kobelinski (FAFI) concluiu a tese Heroísmos, sedições e heresias:  a construção do ufanismo e do ressentimento nos sertões da capitania de São Paulo (1768-1774). A tese foi defendida na Universidade Estadual Paulista (UNESP – Assis) no último dia 15 deste mês – Programa de Pós-Graduação em História, área de concentração HISTÓRIA E SOCIEDADE, Linha de pesquisa Identidades culturais, etnicidades, migrações.  Participaram da banca examinadora os professores  Dr. Antonio Celso Ferreira – orientador - (UNESP – Assis), Dr. André da Silva Bueno (FAFI-UVA),  Dr. André Luiz Joanilho (UEL-Londrina),  Dr. Edgar Ávila Gandra (UNICENTRO- Guarapuava) e Dra. Eliane Cristina Deckmann Fleck (UNISINOS- São Leopoldo).


Prof. Dr. Michel Kobelinski: “a idéia inicial era a de trabalhar com uma história da paisagem no início do século XIX, logo após a vinda da Família Real para o Brasil. Contudo, ao deparar-me com a documentação constatei que a “percepção” dos “ambientes” era complexa e resultava de construções mentais e da cultura luso-brasileira. Foi preciso recuar para entender melhor as relações sociais e as formas de pensar, de representar, de escrever e de sentir no período colonial. Preocupei-me com o problema da construção do ufanismo e do ressentimento em nossa formação identitária, pois  estes comportamentos eram subjetivos e contraditórios. Sua gênese estava presente  nas disputas entre “paulistas” e “forasteiros” (Guerra dos emboabas, 1708-1709) nas Minas Gerais. Acontece que  entre 1768 e 1774, durante o governo do Morgado de Mateus, na capitania de São Paulo (na época abrangia o atual Estado do Paraná) os historiadores paulistas não só retomavam as pendências da Guerra dos Emboabas, mas também  estruturaram suas obras a partir de ressentimentos pessoal, coletivo e político. Ao analisar  alguns documentos notei que o ufanismo e o ressentimento eram sensibilidades em oposição e correspondência, e estavam ligadas a uma identidade paulista fundamentada na contradição e na negação da realidade colonial. Seguindo este percurso, investiguei as ações e reações às manipulações sociais, as articulações entre as individualidades dos sujeitos e as práticas sociais. Cabe ressaltar que a investigação também é primordial para a  história local, uma vez que também investiga as expedições militares  e como a historiografia tradicional paranaense encobriu um tema polêmico: a deserção de soldados nos sertões coloniais.” (Estampa 6: Ciclo mirandino, 1770, Coleção Pimenta Lago: “hum índio com 5 filhos tirando pinhão do lago, chega a vê-lo o tenente Cascaes, com os 5 cavaleiros que hiam descobrir o campo).


Considerações sobre a pesquisa


       Prof. Dr. André Bueno: “na leitura do dito trabalho, pude constatar um aprofundado senso de pesquisa histórica, manifesta pelo uso vasto e intenso de uma variada documentação, ação como uma articulação temporal condizente com a sua proposta. Destaco também o uso de uma linha teórica (História das Sensibilidades) que se mostra inovadora no campo historiográfico brasileiro, posto que tal ainda não se encontra totalmente difundida em nosso meio acadêmico, marcando então o pioneirismo desta proposta de análise”.


       Professora. Dra. Eliane Cristina Deckmann Fleck: “gostei muito da proposta original de análise que a tese contempla e da perspectiva teórico-metodológica – a opção em desvendar  as reações íntimas na perspectiva da história das sensibilidades – que permeia. Gostei, especialmente, da forma como construíste a argumentação, como um puzzle que vai sendo montado na nossa frente e em que todas as possibilidades de leitura foram cuidadosamente pensadas, exaustivamente investigadas e inseridas. [...] A consulta às fontes – historiografia clássica, relatórios militares, correspondência, legislação, literatura, sonetos/poesias – revela um investimento exaustivo, qualificado e bem sucedido de análise da documentação. Gostaria de destacar o teu empenho em ler nas entrelinhas, em fazer leitura em negativo das fontes, cotejando-as, na medida do possível, com outras do mesmo período. O investimento pessoal que fizeste revelou um pesquisador obstinado, rigoroso e adepto de uma saudável postura “detetivesca”,  ao perseguir todas as pistas, ao elencar possibilidades. Reafirmo aqui o que já havia adiantado, de que efetivamente foste bem sucedido em – e eu cito do
Resumo - verificar em que medida os “poderes coloniais”, pessoas comuns, oficiais e soldados se satisfaziam ou “sucumbiam” a esses processos, por efeitos de conquistas, de “perdas” e de “ausências” manifestadas em situações de êxito, nobreza, desejos, fantasias, privação da vida e hostilidades (de indígenas e de espanhóis), construindo, simultaneamente, imagens espetaculares ou depreciativas da natureza e da sociedade colonial.  Mas, mais do que identificar momentos em que tu mesmo justificas a validade da investigação, creio que pudemos constatar o quanto foste bem sucedido no propósito de desvendar sentimentos como raiva, melancolia, saudade, orgulho, tristeza, alegria, avareza, medo, e a violência, por exemplo. Além disso, conseguiste demonstrar que grande parte das narrativas foi construída sobre informações históricas sobre os interiores coloniais encomendadas pelo Morgado de Mateus.


       Prof. Dr. Michel Kobelinski: “Se o ufanismo refere-se a valorização de si e do que se dispõe, é tempo para comemorar mais esta significativa conquista. Contudo, devo dizer que os excessos são prejudiciais, e neste caso trazem em si uma carga negativa ao desconsiderar as participações de outros atores sociais. Neste sentido, expresso os meus agradecimentos ao professores Dr. Eloy Tonon  e Ms. Leni Trentim Gaspari; ao professor Osvaldo Nogara, ao prof. Dr. José Fagundes, ao Diretor Valderlei Garcia Sanches, aos professores do Departamento de História, por todo o apoio  e profissionalismo ao longo dessa jornada.  

 

 

 

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