União da Vitória: 119 anos e muitas histórias

 

Leni Trentim Gaspari
Membro da ALVI

         O tempo da nossa história acelera de forma vertiginosa e vem marcado pelas transformações que contrastam com outros tempos: o tempo de permanência, da continuação e da memória. Em seu processo de transformação, a cidade tanto pode “ser registro como agente histórico” (1), e isso destaca a noção de territorialidade, identificando o espaço enquanto experiência individual e coletiva.
         Essa questão se evidencia de forma muito clara em União da Vitória e Porto União, ao percebermos que as ruas, as praças, a estação, o Rio Iguaçu, o cinema, os trilhos, a locomotiva 310, entre outras coisas, estão repletas de lembranças, experiências, memórias e histórias. E é dessas memórias e histórias que desejo aqui comentar como forma de homenagear minha cidade no dia do seu aniversário.
         Vou iniciar pelo Rio Iguaçu, elemento marcante no desenvolvimento da antiga Porto da União, nos meados do século XIX com a descoberta do Vau em 1842, facilitando a travessia do gado pelos tropeiros e encurtando distâncias. A importância do rio na construção da história da cidade amplia-se, quer pela utilização das canoas, das balsas ou da navegação a vapor.
As canoas representaram etapa importante na evolução dos meios de transporte das cidades gêmeas e como diz Riesemberg (2) “o remo manejado pelo braço forte do canoeiro ligou, econômica e socialmente, o oeste longínquo e os campos gerais, através da solidão do Iguaçu”.
         O uso de balsas também foi significativo no cotidiano da população de Porto União e União da Vitória. Usadas para transportar passageiros e cargas de maior peso na travessia do Rio Iguaçu.
Canoas, balsas e vapores são referenciais importantes para a construção da história da cidade pelo que representam com o surgimento de novas profissões, novos costumes, avanço na economia e melhoria nos transportes via Rio Iguaçu.
         Nos estudos de Riesemberg (1973) constatamos a vantagem do estabelecimento da navegação a vapor favorecendo e barateando o transporte de produtos, até então feito utilizando-se animais.
         Nosso lindo e majestoso Rio Iguaçu é perenizado pelas mãos dos nossos artistas pintores, poetas, compositores, fotógrafos e escritores os quais, cada qual ao seu modo, exaltam sua beleza.
         Retomando meu devaneio ao passado, volto meus pensamentos a 1904 quando inaugurou-se o primeiro serviço de diligências, entre a Vila de União da Vitória e Palmas, em contrato firmado entre o Sr. Augusto Riesemberg e o governo do Estado.
         Riesemberg, esclarece também que este serviço até março de 1905 só se estendia até a Jangada tendo em vista a precariedade da estrada dali para frente. “Desta data em diante foi que, certamente, se prolongou até Palmas, após a construção da ponte sobre o rio Caldeiras e a execução de vários reparos na estrada velha”, facilitando o acesso pela mesma.
         O contrato previa o serviço de diligências entre a vila de União da Vitória e a cidade de Palmas, durante oito meses, oferecendo uma viagem semanalmente. Os carros utilizados (ônibus) deveriam ter para esse serviço acomodações para seis pessoas. Partiam de União da Vitória, nas segundas-feiras, às 8 horas da manhã, durante o verão e às 9 horas no inverno, chegando a Palmas na quarta-feira.
         Riesemberg (3) descreve a diligência: “Os veículos da primeira linha de diligência entre União da Vitória e Palmas pertenciam ao tipo chamado “landau”, usados então naqueles serviços. Eram carros confortáveis, de molejo flexível e bancos estofados, podendo ser inteiramente fechados, com duas portas laterais envidraçadas. Eram munidos de lanternas, para as viagens noturnas. A capacidade era para quatro passageiros, podendo levar mais um na boléia, ao lado do cocheiro. A tração era feita por seis cavalos, mudados ao longo do caminho, em pontos certos”.
         A nossa imaginação alça vôos ao mergulhar no tempo e encontrar essas histórias. Diligências... charretes... carroças... tudo nos parece tão distante quando vemos a União da Vitória de hoje repleta de belos e confortáveis meios de transporte para os seus moradores. Mas, isso é História! História é transformação!
         Voltemos nossas reflexões a 1905, quando na Vila de União da Vitória inaugurou-se nossa primeira estação ferroviária. A margem direita do Iguaçu – atual bairro São Cristóvão. E, em 1906, a ponte provisória sobre o Rio para a passagem dos trens. Os historiadores dão notícia de que tal acontecimento provocou na população alegria incontida. Não sei se podemos avaliar os sentimentos que permearam o imaginário da população na época com a chegada dos trens e trilhos. Era um mundo novo... de encantamento... de sedução... e de perspectivas novas que abriam-se a população, no setor econômico, profissional, no seu cotidiano e lazer.
         Em 1907 (4), a Estação Férrea, agora a margem esquerda do Rio Iguaçu, construída no espaço cedido pela Câmara Municipal de União da Vitória, que passou a ser chamada Largo de Estação, tornou-se num ponto importante para a população da pequena cidade.
         Registros históricos apontam que a cidade era iluminada com lampiões a querosene e apagados a meia-noite e, em 1910, instala-se a luz elétrica. Nessa ocasião, em bela festa de inauguração a Banda Musical de Emílio Taboada, abrilhantou tal solenidade. Povo alegre e festivo... como até hoje somos!
         Com a cidade mais iluminada tornaram-se mais animadoras as saídas noturnas para ir à estação, ver a chegada dos trens constituiu-se num costume característico de descontração e lazer onde as pessoas inteiravam-se das novidades, compravam o jornal vindo de São Paulo, observavam os viajantes, paqueravam, enfim, era um espaço de sociabilidade. Nesse contexto insere-se a Praça Hercílio Luz por estar intimamente ligada ao cotidiano da estação. Essa praça foi alvo de inúmeros melhoramentos desde a sua criação em 1909, quando chamava-se Praça da Estação, época da velha estação de madeira, até a inauguração da Estação União, em 1942. Era preocupação dos dirigentes públicos da época mantê-la embelezada e bem conservada porque ela estava intimamente ligada a Estação e aos cinemas. Era comum as pessoas utilizarem o espaço da Praça, enquanto aguardavam a chegada do trem e depois a ida ao cinema.
         E os cinemas? Os cinemas representaram a modernidade, fazia parte do projeto modernizante de Getúlio Vargas e a abertura destes era incentivada pelo Governo. Uma construção importante, que caracterizou progresso para as cidades, mas para além desse aspecto, era importante também ser um lugar de diversão, encontros, namoros. Além disso, o cinema ditava modas, alterava costumes e transpunha as fronteiras do mundo provinciano. Impregnou o imaginário da época com uma magia que fascinava a homens e mulheres.
          Muitas outras histórias eu poderia aqui rememorar, mas para não cansar os que me ouvem, vou concluindo.
         As memórias e histórias que tentei realizar aqui não são só minhas, são também, dos nossos antepassados que de uma forma ou outra construíram a história da cidade em outros tempos. Hoje, nós somos responsáveis pela “guarda” e socialização dessas memórias e histórias e pela preservação do patrimônio-histórico cultural e natural.
         Encerro com uma estrofe da nossa querida poetisa Helena Klotz, membro fundadora da ALVI, que tinha grande amor por esta cidade e a enalteceu sempre de forma poética:

Quisera retratar em ricas aquarelas,
Da minha cidade de encantos.
União da Vitória possui recantos
Que merecem nuances de belas telas.
O ângulo perfeito depende, tanto
Do momento, do tempo ou do autor delas.

Parabéns União da Vitória!

(1) Maria Izilda Santos de Matos. Cotidiano e Cultura: história, cidade e trabalho. Bauru, SP: EDUSC, 2002.

(2) Alvir Riesemberg. Os canoeiros de Porto União. In: A Nau de São Sebastião. Curitiba: IHGEP, 1978.

(3) Alvir Riesemberg. A Nau de São Sebastião. Curitiba: IHGEP, 1978.

(4) Ralph Mennucci Giesbrecht. As ferrovias do Brasil. In: GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos. As ferrovias do Brasil: nos cartões-postais e álbuns de lembrança. São Paulo: Solaris, 2005.

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