Os catadores da margem esquerda: Coleta, sobrevivência e identidade no Médio-Iguaçu no início do século XXI


 
Por: José Roberto Corrêa Such


           
            Concebido pelos professores Jefferson William Gohl e Ilton Cesar Martins do Colegiado de História da FAFIUV, o projeto “Os catadores da margem esquerda: Coleta, sobrevivência e identidade no Médio-Iguaçu no início do século XXI” – integrante do sub-programa Diálogos Culturais do Universidade sem Fronteiras - tem como objetivo pesquisar histórias de vida e condições de trabalho e sobrevivência das pessoas que tem na coleta de materiais recicláveis seu meio de subsistência nas cidades de União da Vitória e Bituruna, e a partir dos resultados dessa pesquisa o grupo visa produzir um documentário que procure problematizar a situação de vida dessas pessoas e apresentar à sociedade, que em sua maioria vê essas pessoas como “indesejáveis” ou simplesmente “invisíveis”.
            A partir dos anos 90, uma diversificação de cadeia produtiva que levou a uma dinâmica de concentração de capital em algumas poucas madeireiras da cidade, aliada a novas legislações sobre o corte de madeiras nativas e o conseqüente reflorestamento gerou grande diminuição da oferta de empregos, e um grande número de ex-empregados deste ramo industrial acabou em empregos informais e subempregos (uma vez que esse ramo industrial demanda pouca formação de seus funcionários). Concordamos com Virginia Fontes[1] , quando a autora afirma que por trás desta exclusão na verdade existe uma inclusão forçada, que gera um exército reserva de trabalhadores a fim de manter os salários baixos e aos poucos acabar com os direitos trabalhistas.
            Sem trabalho fixo, sem qualificação ou escolaridade suficiente para pleitear outros empregos, restam poucas alternativas para estes trabalhadores. E muitos encontraram na coleta de materiais recicláveis uma alternativa de subsistência. Por de trás do discurso ecológico tão em voga na atualidade, estão sujeitos a todo o tipo de estigmas impostos pela sociedade (vagabundos, bêbados, marginais) e acabam ocupando regiões marginais do espaço urbano (longe o bastante para não incomodar os olhos burgueses, e próximo o suficiente para o trabalho) considerados impróprios para a habitação – como a região da ribeirinha em União da Vitória, constantemente vítima de enchentes.
            Paralelamente a esta situação, podemos observar que o catador de papel tem sempre ocupado papel visível em produções artísticas na grande mídia. E como é de praxe em produções destas que tentam retratar o “povo”, resultam em uma construção idealizada por pessoas que não conhecem a verdadeira realidade dessas pessoas, ou apenas a observam de longe. E no produto final aparece um povo – nesse caso o catador – construído pelo intelectual, mas cuja imagem não condiz com a realidade.
            Muito   além dos estigmas a eles impostos e tais construções não-condizentes sobre sua ocupação, a camada da população que se dedica ao trabalho de coleta de materiais recicláveis também possui identidade (ainda que fragmentada), produz e consome cultura e estabelece uma sociedade de rede, seja na forma de cooperativa ou por vizinhança. É este verdadeiro catador, retratado por ele mesmo, que buscamos apresentar à sociedade.
            E em Bituruna, procuramos mostrar o programa Reciclinho lá existente - que tirou os catadores das ruas e os colocou em uma cooperativa para trabalhar na triagem de material reciclável, dando também melhores condições de trabalho para estas pessoas – e investigar esse programa como alternativa viável para melhorar as condições de vida e de trabalho dos catadores de União da Vitória.
            O projeto objetiva, portanto, diagnosticar e documentar a situação de existência de grupos de coleta de material reciclável, nos municípios de União da Vitória e Bituruna e viabilizar uma expressão identitária autonôma destes grupos frente à fragmentação forçada pela sociedade mercantilizada. Conhecer a realidade do catador, vista por ele mesmo. Trabalho, família, como ele vê a si próprio, sua relação com os outros e com a cidade, suas condições de moradia, seu cotidiano e identidade. Como objetivos específicos temos:
- Documentar de forma audiovisual a memória dos grupos catadores de resíduos recicláveis de forma a possibilitar a re-construção de histórico auto-referente
- Significar positivamente as comunidades atingidas de forma a estabelecer uma relação de reflexão quanto ao espaço ocupado para as atividades efetuadas (coleta, armazenagem e triagem dos resíduos).
- Ofertar cursos junto às instâncias cooperatistas, que discutam o lugar social, consciência de classe e constituição do sujeito na sociedade capitalista
- Veicular o material fílmico produzido em instâncias de publicização, como programas de difusão nacional (Globo Universidade, TV Cultura e Mostra de Curtas Petrobrás), festivais de cinema e local (exibição no cinema local), além da internet.
- Produzir material bibliográfico onde a pesquisa acadêmica esteja aliada a relatos e histórias contadas pelos próprios catadores.
            Na primeira fase do projeto, foi feito um cadastramento dos catadores junto a um questionário geral que tratava de questões básicas como família, moradia e aspectos biográficos, entre outros. Tentou-se encontrar o maior número de catadores possíveis, na Ribeirinha e outros bairros carentes de União da Vitória (Limeira, Ponte Nova, Cidade Jardim, Serrajão, Muzzolon, entre outros). No total foram cadastrados 116 catadores em União da Vitória, sendo que muitos não concordavam em participar do projeto. Estima-se em um número maior de pessoas trabalhando com coleta da cidade, porém, dificilmente se chegará a totalidade. O mesmo trabalho também foi feito em Bituruna, onde foram cadastrados todos os trabalhadores do Projeto Reciclinho, bem como foi investigado na cidade se haviam pessoas que ainda trabalhavam com coleta nas ruas (lá, a atividade é sujeita inclusive à repressão policial).
            Também foram distribuídas temáticas entre os integrantes do projeto, com o objetivo de realizarem pesquisas a partir do considerável volume de dados levantados durante a primeira fase. A auto-imagem que os catadores tem de si, a relação trabalho x globalização, a investigação de possíveis figuras de liderança dentro das comunidades de catadores, a família como unidade de produção, a relação entre catadores e a ocupação urbana e um comparativo entre as produções da grande mídia que retratam o catador e a realidade encontrada em nossas pesquisas de campo são temas abordados nos trabalhos dos integrantes do projeto.
            Foi também estabelecido um roteiro para o documentário, o qual foi tomando forma na medida em que iam aparecendo os resultados do primeiro levantamento de pesquisa com os catadores. Após o termino da primeira fase de entrevistas, buscou-se aqueles que melhor cooperaram e possuíam histórias de vida interessantes para dar inicio às filmagens.
            Atualmente, o projeto está na fase de filmagens, já tendo sido realizadas gravações em Bituruna, e nas localidades da Ribeirinha, Limeira e Ponte Nova. Para o fim de 2009 e 2010 está programado a conclusão das filmagens, a edição e montagem do documentário, para que nos meados do segundo semestre de 2010 o documentário já seja veiculado e a produção acadêmica resultante das pesquisas apresentada em eventos científicos.
            A equipe do projeto do projeto hoje conta com a coordenação do professor Everton Crema, orientação da professora Dulceli Tonet Estacheski, ambos do colegiado de História da FAFIUV, com a atuação dos profissionais recém-formados Fernando Gohl (Comunicação Social – Relações Públicas – UNIUV), Itamara Cris Marchi (História – FAFIUV) e José Roberto Corrêa Such (História – FAFIUV) e com os acadêmicos do curso de História da FAFIUV Elois Alexandre de Paula, Daniele Ap. Bueno, Julio César Jacinto, Karoline Fin e Marilia Gabrielle Puff.

 


 
 
 
 
 
 


 
 



[1] FONTES, V. Inclusões Forçadas, expropriações e fronteiras do capital. In: GOHL, J. W.; MARTINS, I. C. Colóquios, Vol. 1, N. 1. União da Vitória: Colegiado de História, 2007.


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