Os sonhos não têm idade


Estudos, novas experiências culturais tudo isso fazem parte do sonho da profª Dnda Karim Brito que se tornou realidade segundo seu relato


             
          Fazer parte do meu doutorado no exterior é a realização de um sonho possibilitado pelo DAAD – Serviço Alemão de Intercâmbio Internacional e pela Capes, com o apoio da Universidade Federal do Paraná e da Fafiuv. Estar no centro da Europa, onde quase a totalidade das pesquisas em multilinguismo são realizadas, ter todo o tempo disponível para estudar e conhecer tantas coisas e lugares diferentes, praticar as línguas e aprender mais sobre elas, estando acompanhada da minha família; até o início de 2007 não me parecia possível. Depois de mais de 20 anos dedicados ao exercício do magistério, aos 40 anos de idade, eu pensava que o meu tempo para isso já havia passado. Fico feliz por ter estado enganada! “Para o DAAD existem outras coisas que são mais importantes do que a idade.” Foi a resposta que recebi do meu coordenador da pós-graduação quando demonstrei minha preocupação em solicitar a bolsa de doutorado-sanduíche, e o que ficou comprovado quando recebi além dela a prorrogação para permanecer na Alemanha por mais um ano e escrever aqui a minha tese. A Alemanha é o país que detém o maior índice de formação de doutores.
          Nos últimos doze meses as experiências foram intensas e desafiadoras, não apenas na vida acadêmica. A Universidade Philipps oferece toda a bibliografia de que necessito e a que desejo também, sendo possível solicitar os livros mais atuais. Existem diversas instalações confortáveis, todas com acesso à internet. Com os colegas participei de seminários, ouvi palestras nas universidades vizinhas e participei de um congresso internacional em Bolzano, na Itália. O DAAD também se preocupa com a integração entre os bolsistas e promove encontros, reunindo numa cidade centenas de estudantes e seus familiares que participam de passeios e eventos. Valoriza o desenvolvimento cultural e incentiva o passeio pela Alemanha e outros países da Europa.


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                    Com Renate Krist, bibliotecária no Centro de Informações para a Pesquisa em Línguas Estrangeiras


                   Marburg é uma cidade universitária, com o mesmo porte de União da Vitória e cerca de 80.000 habitantes. Nela vivem muitos estrangeiros, vindos de todas as partes do mundo, e é comum o diálogo em até 6 línguas diferentes num mesmo ônibus. Aqui se respira literatura e história, a promoção da leitura é constante entre todas as idades e em dezenas de eventos. A cidade antiga, que não foi bombardeada durante a II Guerra Mundial, preserva construções lindíssimas, e a beira do rio Lahn é extensamente aproveitada durante a primavera e o verão para tomar sol, grelhar carne com os amigos e jogar xadrez viking. Nessa época também há muitas feiras e festas de rua, e mercados de pulgas que atraem multidões.
          Apesar da língua alemã não ter representado um choque para mim, que a utilizo desde criança, alguns valores e hábitos diferentes custam a ser compreendidos e assimilados. Ser estudante aqui significa ser independente: é sua responsabilidade organizar sua trajetória estudantil. Não há controles de presença, e o estudante escolhe quais módulos entre os oferecidos vai cursar, e contabiliza seus próprios créditos, que alcançará se cumprir os requisitos de provas e trabalhos ao final do semestre. Aliás, em muitos aspectos existe uma grande liberdade de escolha, mas a cobrança é uma consequência mais do que certa se você sair da linha: pode consumir bebida alcoólica na rua, mas se for pego andando de bicicleta alcoolizado perderá a carteira de motorista; ninguém cobra o pagamento da passagem ao entrar no transporte público, mas se você não a tiver comprado no dia em que um fiscal aparecer, o que acontece mais ou menos a cada 4 meses, pagará uma multa de 40 euros (mais de R$ 100,00) e passará vergonha com o sermão dele.
          Os alemães não falam tanto ou tão alto como nós, latinos, ao que parece...Parecem não necessitar ou não gostar tanto da comunicação verbal direta.  Quase tudo está escrito, existem máquinas para que você faça tudo sozinho: comprar créditos para o celular, jornais, comida, trocar dinheiro. O serviço que se presta normalmente no Brasil aqui não é cortesia da casa, é muito bem cobrado: faça tudo o que puder no caixa automático do banco, pois o funcionário vai cobrar 6 euros (cerca de R$ 15,00) por uma ajuda. E como boa parte do pagamento do garçom sai do valor das bebidas servidas, você paga 3 euros (uns R$ 8,00) por um copo de coca-cola sem gelo servida diretamente da garrafa pet que já havia sido aberta, e que no mercado custa menos de R$ 3,00.
          Por outro lado, há coisas que evitamos fazer no Brasil, e aqui são completamente naturais: não é falta de educação assoar o nariz ruidosamente à mesa, nem é atentado ao pudor trocar de roupa à vista dos outros ou frequentar saunas mistas completamente nu. Os cachorros (na coleira) são bem-vindos em quase todos os lugares, incluindo ônibus e restaurantes. Não é proibido consumir bebidas alcoólicas dentro dos trens e ônibus, o que os jovens fazem com muita frequência, e quando é preciso passar entre as pessoas a prática é empurrar sem falar nada; “com licença” já morreu..Por esses e outros motivos, a vida em outro país é uma experiência única para se desenvolver principalmente pessoalmente e de desenvolver habilidades interculturais necessárias ao diálogo em nível internacional. É preciso aprender a ser mais flexível para respeitar as diferenças, e ao mesmo tempo mais exigente para buscar o melhor. Vimos pelo convívio com outros visitantes que essa experiência pode ser tudo de bom ou tudo de ruim, ela só toma forma quando é de alguém.

 

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Com amigos em Munique

 

          É claro que temos saudades do Brasil! Da amabilidade das pessoas, de falar e ouvir somente o português; a banana do Equador, os cafés misturados, a carne de gado da Austrália, a laranja da Espanha, a couve-flor, o abacaxi do Havaí, não têm o gosto que queremos...
                    Mas estamos felizes! Pelas muitas oportunidades, pela acolhida, pelas amizades internacionais! E cada vez mais convencidos de que é válido investir; é válido que a pessoa invista num período de mudanças, e é válido que a educação invista nessa troca.       

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