Prof. Michel Kobelinski participa do VI Congresso do CEISAL na França

VI Congresso do CEISAL - França, 2010.
(Toulouse e Paris: travail et souvenirs de voyage)

 

O EVENTO

O VI Congresso do CEISAL (Conselho Europeu de Pesquisas Sociais sobre a América Latina) - conjuntamente com o IPEALT (Instituto Pluridisciplinar para os Estudos sobre a América Latina em Toulouse) - reuniu a comunidade internacional latino-americanista na Universidade de Toulouse, Le Mirail (França), entre os dias 30 de junho e 3 de julho para refletir o tema Independências, Dependências e Interdependências. A tríade conceitual, motivada pelas comemorações bicentenárias das independências latino-americanas, envolveu espaços de discussão entre as ciências sociais com destaque para a interpenetração destes conceitos no tempo e no espaço das realidades e diversidades regionais e nacionais. O Congresso resultou em 42 simpósios, articulados em 11 eixos temáticos. Seus objetivos visavam constituir um plano de trabalho integrado de pesquisa e disseminação do conhecimento, o fortalecimento dos laços entre pesquisadores europeus, latino-americanos e caribenhos, incentivar novos pesquisadores, além de dar continuidade aos eventos anteriores, realizados em Salamanca (1996), Halle (1998), Amsterdã (2002), Bratislava (2004) e Bruxelas (2007).

Prof. Michel Kobelinski: “Minha proposta de trabalho foi selecionada em 2009. Fiquei muito feliz por ter meu trabalho reconhecido lá fora, além do fato de ter meu primeiro texto em francês divulgado nos anais do evento - La négation et l’exhaltation des sertanistas de São Paulo dans les discours des pères Pierre-François-Xavier de Charlevoix, D. José Vaissette et Gaspar da Madre de Deus (1756-1774). Acredito que todo historiador guarda em si este profundo desejo, conhecer, mesmo que rapidamente, aquilo que é objeto de sua formação, a história e a cultura francesa. Foi um momento para reencontrar amigos e firmar novos contatos. Como pesquiso o jesuíta francês Pierre-François-Xavier de Charlevoix e a construção da Nova França (Canadá), entre 1719 e 1744, refleti as narrativas religiosas dirigidas às ações dos sertanistas de São Paulo nas reduções jesuíticas do Paraguai. No texto encaminhado ao congresso explorei, por exemplo, os desdobramentos das idéias de Charlevoix diante da fragilidade e da incerteza identitária e missionária (entre franceses e espanhóis) nas Américas (Histoire du Paraguay). A queda de poder e de prestigio da Companhia de Jesus contrastava com a consagração da luta eterna entre o bem e o mal, da busca pela felicidade, mesmo porque o processo civilizacional e as missões religiosas encontraram ali o seu fracasso espiritual e moral. E se estes princípios eram reformulados, também era necessário reagir às sátiras veladas de François Marie Arouet de Voltaire (1694-1778). Em “Cândido ou o otimismo” são claras as sensibilidades em correspondência e oposição, manifestadas nos termos ingenuidade e esperteza, desprendimento e ganância, caridade e egoísmo, delicadeza e violência, amor e ódio. Voltaire criticava a filosofia de Leibniz e o ideal religioso, e principalmente a idéia de acreditar que tudo vai bem, que sempre haveria um futuro melhor. E se de fato a condição missionária arrostava com o escravismo praticado pelos espanhóis na América do Sul, ambas não eram objeto de questionamento. O compromisso com a Verdade em Charlevoix é mitigado, pois sua reflexão não era só em relação ao fato de os índios estarem melhores ou piores após a colonização espanhola, mas como as reduções jesuíticas iluminavam espiritualmente as almas do novo mundo e as conduziria à felicidade”.

                                                                                  
Lidiana L. Lenchiscki: “A primeira vista parece um tanto estranho ir à Europa compartilhar pesquisas e aprender algo sobre a América Latina, mas obviamente é muito satisfatório. No VI Congresso CEISAL 2010 (Independências – Dependências – Interdependências), havia estudiosos de vários países das Américas: Brasil, Estados Unidos, Argentina, México, Colômbia (entre outros) e representantes de países europeus que dedicam seus estudos à temática. A maioria deles dominava a língua expressa nos documentos pesquisados, ou seja, principalmente o Espanhol. Enfatizo a importância do contado com diversas linhas de pesquisas e as suas respectivas áreas: História, Ciência Política, Ciência Social, Antropologia, Direito. Aprendi muito nos simpósios e nas conferências plenárias que participei; eles foram essenciais para eu mudar muitos pontos de vista, pensar novas problematizações e estabelecer relações com os estudos e leituras já realizadas. A discussão referente ao Simpósio denominado Instituições, Processos Políticos e Lideranças, por exemplo, tratou sobre a Democracia e Segurança no contexto da consolidação democrática na América Latina. As discussões, diga-se de passagem, muito bem conduzidas, apresentaram informações políticas e sociais da atualidade. Elas contribuíram significativamente para minha formação intelectual. Igualmente no Simpósio denominado Pluralismo Cultural, Religioso e Jurídico, referente ao tema Missões e Culturas Indígenas na América Latina houve trabalhos instigantes, que apresentaram uma excelente articulação entre as teorias e as fontes de estudo, como fotografias e imagens históricas, mapas históricos, tradução de textos e de documentos. Outros pontos que me chamaram a atenção nas sessões de trabalhos foram: o respeito dedicado pelos participantes ao ouvir e tomar notas das apresentações nas sessões de trabalhos, bem como o respeito pelas posições diferenciadas nos debates. As perguntas formuladas aos comunicadores foram muito bem elaboradas e inexistiu uma distinção ou hierarquização pela titulação dos participantes. As sessões começavam nos horários determinados e havia excelente receptividade aos presentes. Enfim, a organização do evento na Universidade de Toulouse – Le Mirail - foi ótima”.

SOBRE A VIAGEM

Prof. Michel: “O que mais me impressionou na França foi a organização, a segurança, o respeito às leis e, principalmente a ausência do personalismo. No Brasil somos obrigados a conviver com violação dos direitos democráticos e com um séquito de lustra-botas que  imaginam ter poderes de invisibilidade. O famoso jeitinho brasileiro lá fora é o que mais nos envergonha. Falo por aqueles que abominam (na teoria e na prática) este comportamento canceroso que corrói as estruturas sociais de nosso país. Por outro lado, apreciar a movimentação das pessoas nas alamedas, acomodar-se tranquilamente em algum lugar para apreciar um quadro ou um monumento, perceber o gosto generalizado das pessoas pela história, degustar as delícias de uma autêntica pâtisserie francesa, aperfeiçoar a pronúncia, paralisar diante daquilo que só se viu nos livros e na televisão, viver alguns dias respirando história, ter a sensação de estar em casa e de que o tempo transcorria lentamente são coisas que só podem ser feitas com paciência, sabedoria, recursos e, principalmente com quem você quer ao seu lado. Por isto aproveitamos cada instante, mesmo quando descansávamos. Stendhal nos ensina em Mémoires d’um touriste e Voyage dans Le Midi de La France (1838) a nos sentirmos naturais em nossas viagens e passeios, entendendo que o olhar sempre é parcial e incompleto, por isto mesmo as digressões, os pensamentos e as sensações devem ser envoltas pela ação contínua de aprender, de perscrutar o que está em nós e diante de nós, em como apreendemos as coisas, os outros e a nós mesmos”.

Lidiana: “É muito interessante visitar outro País com um meio cultural diversificado, tal como apresentam as cidades de Toulouse e Paris na França. Ao viajar, podemos ter nossas próprias impressões, sem ficar dependendo apenas das informações veiculadas pelo mass media, ou mesmo, comentários de pessoas que, não tiveram a oportunidade de visitá-las. Deste modo, conseguimos, em certa medida, “desmistificar” algumas coisas que ouvimos, bem como aprendemos a respeitar outros hábitos ou costumes, diferentes dos nossos. Temos a oportunidade de conhecer pessoas de várias nacionalidades, de praticar uma língua estrangeira como o Francês e, em alguns casos, o Inglês e principalmente, refletirmos alguns aspectos do conhecimento europeu transmitido para nós em anos de estudos.”

TOULOUSE

Prof. Michel: “Visitar Toulouse é uma experiência indescritível. A cidade dos Médios Pirineus é nostálgica e moderna: suas características físicas, qualidade de vida, formação profissional desenvolvimento aeroespacial e tecnológica são seus principais atrativos. O coração da cidade começa no Capitole; nos quarteirões ao redor sua intensidade se revela em pluralidade e dinamismo. Os passeios podem incluir a igreja de Saint-Sernain, edifícios antigos, Liceus, Faculdades e bibliotecas, cafés, livrarias. No Museu de Arqueologia Saint-Raymond, pode-se mergulhar em referenciais da Antigüidade e da Idade Média. Há também a Cinemateca de Toulouse e a Caverna da Poesia com eventos culturais regulares. Outro destaque é o Canal do Midi (patrimônio da humanidade) que liga o oceano Atlântico ao Mediterrâneo. Obra monumental iniciada por Leonardo da Vinci e finalizada por Pierre-Paul Riquet, em 1662, no governo de Luis XIV”.

Lidiana: “Toulouse é uma metrópole com aspectos de cidade ‘interiorana’, tanto na boa receptividade quanto no tratamento pessoal. Na minha percepção, a organização desta cidade é impressionante. O sistema de transportes é moderno e eficiente: metrôs, trens, ônibus e bicicletas disponíveis nas calçadas para serem alugadas. A limpeza nas ruas, praças e monumentos são outros pontos a destacar; estes espaços são movimentados e utilizados como ambientes de leitura, lazer e cultura. As construções históricas são muito bem preservadas. A igreja de Saint-Sernain é um dos principais pontos de visitação. Consagrada pelo Papa Urbano II, em 1096, possui relíquias sagradas; transformou-se em um dos mais importantes centros de peregrinação medieval, além de ser a maior igreja romana preservada na Europa. No museu Saint-Raymond nos deparamos com a história greco-romana por meio das peças arqueológicas; é emocionante vê-las de perto e relacioná-las ao que foi aprendido. São muitos os ambientes a serem visitados. Conhecer diferentes regiões da França é uma atividade que nos permite entender as relações entre o presente e o passado, verificarmos suas diferenças e procurarmos evitar tratar um país de forma homogênea.
     
PARIS

Michel e Lidiana: “Conhecida como o “primeiro” lugar de destino para a visitação mundial, Paris é deslumbrante. Principalmente para quem dedica seus estudos à História e percebe sua importância em nossas vidas. É o lugar ideal para quem aprecia cultura e arte. Os ingressos para os eventos e exposições são democráticos. Paris é uma cidade muito bem preparada para a recepção de turistas. As informações são fáceis e o deslocamento pelo sistema de transportes (trem, ônibus e metrô) é absurdamente rápido; para cruzar a cidade de um extremo a outro são necessários apenas 22 minutos. Os pontos de ônibus apresentarem painéis digitais com o tempo restante para a chegada dos próximos dois veículos. Detalhe: a pontualidade é constante. Os espaços são bem aproveitados, as construções históricas são tremendamente valorizadas e os processos de restauração são constantes. Nas praças existem vários pontos de acesso a redes de internet sem fio (todos gratuitos). No período em que estivemos em Paris (férias de verão), o fluxo de turistas era extraordinário e permitia contatos multiculturais”.

“Destacamos, ao norte de Paris, na famosa colina de Montmartre, a belíssima Igreja Sacré Coeur (Sagrado Coração), local repleto de turistas, artistas circenses, violinistas, retratistas, restaurantes, museus e lojas de souvenirs. Passaram por este lugar, São Germano, Santa Clotilde, São Bernardo, Santa Joana Darc, São Vicente de Paula e Santo Inácio de Loyola. A abadia beneditina ocupou este lugar até a Revolução Francesa, quando foi destruída e as freiras foram guilhotinadas. A derrocada francesa na Guerra Franco-Prussiana levou Alexandre e Legentil Hubert Rohault Fleuri (1870) a erigir uma igreja dedicada ao Coração de Cristo (Sacreau Couer), pois eles achavam que a ruína da França era mais espiritual do que política”.

“Na Praça Charles de Gaulle, no final da avenida dos Campos Elíseos visitamos o Arco do Triunfo, monumento grandioso com seus 50 metros de altura que enaltece as glórias de Napoleão Bonaparte e o I império francês; às inscrições das 128 batalhas e aos nomes de 500 generais daquele período foram incorporadas outros referenciais históricos: o Túmulo do Soldado desconhecido (I Guerra Mundial – 1914-1918), a data da instauração da III República durante a Comuna de Paris (4/9/1870) e a devolução da Alsácia e Lorena pelos alemães (11/12/1918)”.

“No Campo de Marte a Torre Eiffel proporciona uma visão privilegiada de Paris e do Rio Sena, além de ser eminentemente um projeto arquitetônico belíssimo e imponente que marca a paisagem parisiense. O projeto de Gustave Eiffel, erigida para inaugurar a Exposição Internacional de 1889 e comemorar o centenário da Revolução Francesa não foi bem aceita pelos franceses. Mas isto mudou e hoje é o cartão postal da cidade. Podemos notar na parte superior dos arcos da estrutura a homenagem de Eiffel aos setenta e dois notáveis (engenheiros, cientistas, filósofos, etc.). Atualmente é um dos monumentos mais visitados do mundo”. 

“Junto ao Hotel dos Inválidos (edificado no governo de Luis XIV para auxiliar os soldados feridos - ‘que derramavam seu sangue para defender a monarquia’ - o Museu das Armas apresentava as exposições: Segunda Guerra Mundial, o governo de Charles de Gaulle e as Guerras Napoleônicas. Logo ao lado, na catedral de São Luis dos Inválidos (1706), na cripta repousam as personalidades do Primeiro Império: Napoleão Bonaparte, seu filho François Bonaparte, e seus irmãos Joseph e Jerome. Ao lado estão os genarais Duroc e Bertrand, e o autor da Marseillaise, Rouget de Lisle”.  

“Visitar uma das catedrais mais antigas em estilo gótico na Ilha da Cidade é outra experiência prazerosa e emotiva. A catedral de Notre-Dame de Paris (1163) e suas fachadas contam a história de Maria e de Jesus Cristo. A fama da Catedral que recebe mais de 14 milhões de visitantes por ano surgiu no seio do espírito romântico com Victor Hugo (romance de Notre-Dame de Paris, também conhecido com o Corcunda de Notre-Dame). Contudo, deve-se destacar que em 1314, os templários seguidores de Jacques de Molay, considerados heréticos, foram queimados na fogueira (Praça Parvis) durante o Governo de Filipe IV. Ali, em 1804, o Papa Pio VII “coroou” Napoleão Bonaparte, e mais tarde, em 1909, Joana d’Arc, a personagem histórica valorizada na memória nacional pelo historiador Ernest Lavisse foi beatificada”. 
 
“No Museu do Louvre (Palácio do Louvre), antiga sede das dinastias dos Capetos até  o governo de Luis XIV, nos deparamos com grandiosas obras da humanidade (Oriente e Ocidente) em exposições sobre o Egito Antigo, Grécia e Roma, Mesopotâmia, Idade Média, esculturas e pinturas renascentistas. Não há como destacar esta ou aquela obra. Para termos uma idéia estão ali a Vitória de Samotrácia (220-190 a. C), a Vênus de Milo e obras de artistas como Ticiano, Michelangelo, Goya, etc. Enfim, apreciar os quadros de Leonardo da Vinci (Monalisa), Jean-Louis David, Delacroix ou mesmo os sarcófagos egípcios, a pedra em basalto com a inscrição do Código de Hamurábi, nos deixou extasiados”.
“No Cemitério Père-Lachaise (homenagem de François d’Aix de La Chaise, 1624-1709, confessor de Luis XIV) descansam personalidades históricas como Augusto Comte, Champollion, Edith Piaf, Chopin, Alan Kardec, Modigliani, Honoré de Balzac, Pierre Bourdieu, Fernand Braudel, Jules Michelet, o muro dos Federados (Comuna de Paris), entre outros”.

Lidiana: “Um dos legados que nos deixa ao visitar Paris e Toulouse é a necessidade de criarmos uma consciência maior da preservação de nossa memória nacional e histórica para os museus, ruas, praças, construções típicas, entre outros, e que contemple a diversidade étnica e social de nosso país, para que as futuras gerações também tenham acesso a elas e possam refletir a sua formação, fomentando um pensamento crítico (principalmente por meio do processo educacional). Conforme escreveu o historiador Jacques Le Goff (1996, p.477): “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”.

 

Prof. Michel: “Ao conhecermos um pouco estas cidades notamos a consciência dos franceses na preservação da memória nacional e na manutenção dos princípios democráticos. Considerando nossa realidade é necessário criarmos uma consciência de preservação das diversas memórias em conflito que fizeram parte de nossa história, alavancar a educação patrimonial e a atuação preservacionista. Contudo, se estas ações são indiscutivelmente necessárias figuram com um ideal romântico num país onde a consciência dos indivíduos e os princípios democráticos são aniquilados, principalmente pelas práticas personalistas que nos impedem de construir uma sociedade melhor”.

 

Catedral de São Luis dos Inválidos

 

 

Catedral de São Luis dos Inválidos - Sarcófago de Napoleão Bonaparte

 

 

Cemitério Père-Lachaise - Chopin

 

 

Igreja do Sagrado Coração - Montmartre

 

 

Igreja de Saint-Sernin - Toulouse

 

 

Museu do Louvre (Palácio do Louvre)

 

 

Michel e Lidiana - Catedral de Notre-Dame

 

 

Prof. Michel Kobelinski – apresentação de trabalho- Toulouse

 

 

Professores Michel e Sérgio Botta (Universidade de Roma)

 

 

Torre Eiffel - panorâmica

 

 

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