A volta dos Monges do Contestado


Doutor da Fafiuv faz com que os Monges do Contestado ressurjam.Não na forma física, mas por meio de um livro que será lançado nos próximos dias

 

           Resultado da tese de doutorado em História pela UFF (Universidade Federal Fluminense), o professor Dr. Eloy Tonon traz uma reflexão política e cultural em seu livro ‘Os Monges do Contestado: Permanências, predições e rituais do imaginário’. A permanência no imaginário e a prática dos rituais, segundo o trabalho de Tonon, ainda existem. Baseado na história oral e entrevistas com pessoas que perpetuam esta “cultura” composta pelas lendas regionais, os rituais, as rezas e ensinamentos dos monges com preservação de amuletos em casas. Alguns possuem fotos e outros perpetuam rituais como os batismos e as fontes.
           O livro é o nº 85 da coleção Vale do Iguaçu. Estão previstos três eventos de lançamento: pela ALVI (Acadêmica de Letras do Vale do Iguaçu), FAFIUV e outro na UNC (Universidade do Contestado) em Canoinhas. Em meados de setembro e início de outubro.
           A figura do monge é originária dos monastérios, segundo Tonon. Presentes na Idade Média para praticar trabalhos religiosos e agir contra os hereges. Muitos permaneciam e viviam no isolamento do mundo externo reclusos atrás das muralhas dos mosteiros. Existem atualmente monastérios com congregações que trabalham em vários organismos sociais.
           Na região do Contestado foram cerca de 50 monges oriundos da Europa que por aqui passaram, de acordo com o professor. “Eram figuras virtuosas, que conheciam rezas, curas e homeopatia. Na ausência do poder público, foram os ícones da redenção dos sertanejos, na região. Criaram um status de santidade diante do sertanejo, vestiam-se pobremente, dormiam em grutas, não aceitavam donativos”, define o doutor. O escritor compara a figura dos monges com os santos do catolicismo, como São Francisco de Assis.
           Tendo como foco principal as questões político-econômico e culturais, o livro é composto de cinco capítulos. O primeiro aborda a questão da religião e a cultura popular;  o segundo faz uma análise das produções escritas sobre o contestado; o terceiro fala especificamente sobre os três monges principais do Contestado, D’Agostinis, João Maria de Jesus e José Maria, relacionando sempre a história dos monges e a relação deles com a história; o quarto capítulo aborda as Irmandades Sertanejas Místicas e o quinto as crenças, rituais e locais de memória dos monges.
           Sobre os monges de maior expressão na região o historiador faz uma abordagem específica. “Esses três que eu estudo percorreram todo o sertão de Santa Catarina, sendo o primeiro (D’Agostinis) o disseminador de cruzes, o segundo (João Maria de Jesus) o monge da paz, curandeiro e o terceiro José Maria que desencadeou a guerra”, explica.
           Segundo Tonon, existem os redutos, as irmandades místicas e locais de memória dos monges. A história dos monges tem a ver com o nascimento do messianismo. “Na cultura messiânico aguarda-se o retorno. A expectativa do retorno ocorreu na região, similar a espera portuguesa por d. Sebastião, aqui houve a espera por um longo período pela volta do monge José Maria, morto e interado no Irani para redimir e salvar os sertanejos”, acrescenta.
           O papel de liderança dos monges é bem peculiar, conforme o escritor. “As virtudes e os carismas deles, especialmente, os monges souberam ler as dificuldades dos sertanejos, diferente até dos franciscanos que tiveram dificuldades com os sertanejos”, comenta. Cada um dos três monges teve seu papel social. “O monge foi uma grande bengala e um grande cabide das inquietudes dos sertanejos.” A época do monge José Maria foi o período da consolidação da República e o contestado veio na esteira do medo de Canudos, segundo Tonon. “Foi traumático e trágico tudo o que foi feito no Contestado”, completa.
           “O movimento, após a morte de José Maria, esmaece um pouco com o ataque do exército nacional às irmandades místicas e redutos”, pontua. “Mas não morre porque se perpetua nos descendentes, no imaginário e nas práticas rituais.” Segundo o historiador, ainda existem pessoas que se dizem descendentes dos monges e executam seus trabalhos com boa aceitação, provando a memória viva do movimento.
           “As declarações das pessoas são surpreendentes”, mencionando as entrevistas contidas no livro. Tonon contou que há pessoas que batizam os filhos, nas mesma fontes, que eles próprios foram batizados, assim como os avôs. “Perpetuam a tradição mística e a crença popular, assim como o consumo das águas das fontes dos monges.” São inúmeras fontes atribuídas aos monges, segundo ele, mais difícil de  serem catalogadas.
           “Eu creio que é um trabalho interessante pelo fato de ter uma abordagem bastante diversificada”, conta Tonon, relatando a abrangência do trabalho no campo da história, cultura, religião e misticismo. Inclusive o trabalho visa quebrar estereótipos e fazer uma reflexão, sobre a atribuição dada aos sertanejos do contestado como bandido, marginalizado e excluído, passando a viver da pistolagem. Ainda reflete as origens do MST (Movimento dos Sem Terras) “de forma ousada” segundo o escritor, oriunda da região do Contestado e não do Rio Grande do Sul conforme afirmam alguns escritores.

 

 

Texto e foto: Sidnei Muran

 

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