Luto na Filosofia

É com profunda tristeza e extremo pesar que comunicamos o falecimento do Prof. Dr. Valério Rohden, em Curitiba, neste domingo, 19 de setembro de 2010. O professor Valério foi um dos mais iminentes filósofos do Brasil, principal responsável pela tradução das obras de Kant para o português e pelo desenvolvimento dos estudos kantianos em nosso país. Além de todo o esforço que praticou para uma tradução fidedigna da obra do filósofo alemão, além de seu estilo firme e elegante, e da quantidade de obras que escreveu, o professor Valério nos deixou um exemplo ímpar de trato honesto com a filosofia, de questionamento vivo, de um ânimo imbatível para a discussão. Quem conheceu de perto o professor Valério sabe que seu legado, que é muito maior do que suas excelentes traduções, está numa luta autêntica pelo desenvolvimento da filosofia no Brasil e no caráter de verdadeiro pensador que nunca se eximiu de pensar, com e a partir de Kant, todos os problemas da filosofia.


Em junho de 2009, o professor nos deu a honra de proferir a palestra intitulada “O Conceito de Filosofia em Kant” nas dependências de nossa Faculdade. Com sua habitual e extrema humildade, dividiu conosco uma visão inigualável da filosofia kantiana e do potencial libertador da filosofia. Dois meses antes, havia concedido gentilmente uma entrevista a alunos do curso de licenciatura em Filosofia, à época participantes do Projeto de Extensão “Pensando nas Ruas”, do Programa Universidade sem Fronteiras. Reproduzimos aqui, na íntegra, a entrevista, em forma de homenagem a este que deve sempre servir de inspiração para as jovens gerações de professores de Filosofia.

União da Vitória, 19 de setembro de 2010,
Colegiado de Filosofia da FAFIUV

 

  1. Caro Professor Valério, nós somos alunos do curso de Licenciatura em Filosofia da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória – PR. Participamos de um projeto voltado para o Ensino de Filosofia. Gostaríamos de, primeiramente, agradecer pelo senhor nos estar concedendo esta entrevista, e lhe perguntar: quais as mudanças que o senhor acredita que o retorno da Filosofia como disciplina obrigatória aos currículos de Ensino Médio pode trazer para a educação e para a sociedade?

O ensino de filosofia pode ter uma importância maior do que tem hoje, e a filosofia promete mudanças para educação e a sociedade. O seu retorno aos currículos é fruto de uma lei e uma luta muito grande, e foi bom que as duas disciplinas, filosofia e sociologia, voltassem juntas. Desde que eu era jovem, lutei para a reintrodução da filosofia, desde a ditadura militar. Criamos uma sociedade filosófica com esse objetivo.
Sei que a filosofia entrou sem muita vontade de que se contratassem professores específicos, entrou com má vontade. Sua reintrodução foi frustrante. Mas acho que isso não vai durar pra sempre. Já há muitas instituições de ensino superior qualificando profissionais para essa área e haverá mais amadurecimento político para que seu ensino seja válido. Os frutos que ela pode trazer são os que fazem parte de sua própria essência. E ela pode trazer mais reflexão aos estudantes que estudam outras disciplinas. Além disso, a filosofia pensa não só de forma mais global sobre a realidade e a prática, mas ela traz conceitos que devem ser renovados pelos profissionais. Ela tem que entrar em diálogo com outras áreas de ensino para não se desatualizar. A sociedade terá mais vantagens em médio prazo, onde estudantes mais críticos vão criar as bases de uma sociedade melhor.

  1. De toda a sua trajetória na filosofia, o que mais valeu para o senhor?

 

Boa parte do que valeu foi já de partida, quando descobri que gostava de filosofia. Ela nasceu em mim de um parentesco familiar, de um tio que escrevia reflexões, uma coisa mais para o povo, o que serviu de influência pra mim. Quando estive no seminário tive o primeiro contato com a filosofia, ensinada por um bispo, que colocou de maneira tão radical a questão do ser que me levou a um deslumbramento, e então o mundo havia mudado pra mim. Foi uma experiência marcante. Conhecimento, gosto e prazer nascem juntos. Depois é que há um estudo imposto. O gosto deve ser restabelecido por todos, senão não há criatividade para contribuir, não só para o desenvolvimento da filosofia, mas para que o conhecimento e a prática tenham sentido. A ligação entre prazer e prática é o que deve se manter em tudo. A reflexão filosófica tem que se estabelecer através do prazer e do gosto. Poderia dizer que valeu ter estudado línguas, como o latim, o grego e o alemão, para aprender filosofia. Descobri que a experiência de vida que tive na Alemanha me havia habilitado para as traduções.

  1. Na sua perspectiva como professor, qual a maneira mais adequada para se ensinar filosofia?

 

Há um mês fiz a revisão de uma obra que falava disso, de como estudar filosofia. O livro mostra como a filosofia se faz não só na sala de aula, mas como devemos argumentar e dialogar. O aluno tem que ver no professor que ele está identificado com a filosofia e que ele não é repetidor, mas que pensa o que lê. Talvez a melhor maneira seja uma leitura refletida que leve os alunos a pensar, mas que não se torne uma aula mecânica, mas dinâmica, que desperte para uma interação em sala de aula. O professor tem que cobrar leituras e métodos de trabalho e cuidar para que os alunos escrevam os próprios trabalhos, e que não caiam na tentação de encontrar trabalhos prontos. Tem que haver ética para fazer filosofia, ser honesto e fazer trabalhos que não repitam outros autores, procurando formular de outra maneira o que leu. Ensinar filosofia tem por principal tarefa ensinar a pensar, numa continuação crítica.

  1. O senhor pode nos contar um pouco sobre a Sociedade Kant no Brasil? Qual é o objetivo desse projeto?

 

Fui presidente por 12 anos. Hoje é Ricardo Terra, professor da USP. A Sociedade nasceu dum grupo Kant da Anpof. Ela deu frutos com estudos de Kant no Brasil, com base em estudos no exterior de professores e tradutores, que acabaram tornando Kant o filósofo mais estudado no país a partir dos anos 80. A sociedade se desenvolveu tanto que se escreveu nesses mais de vinte anos muitas teses e dissertações, estimulando um extraordinário desenvolvimento da filosofia kantiana. Os frutos foram trabalhos sólidos e a formação de professores que entendiam de Kant. O reconhecimento veio quando sediamos o Congresso Kant da Sociedade Kant Internacional [em setembro de 2005]. O Brasil concorreu e foi escolhido graças a uma comissão de fora que veio analisar e gostou muito do que viu. A sociedade também publica uma revista sobre o filósofo.

  1. Tendo sido um dos fundadores da Anpof, o senhor pode nos contar quais eram as principais intenções dessa criação? Como o senhor a vê hoje?

 

Inicialmente, a idéia veio do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi feito um pedido ao CNPq, numa reunião em março de 1983, para que apoiasse a sua criação. A Associação pretendia se diferenciar, na época, de outra Sociedade de Filosofia, que havia se politizado de tal forma que os estudantes haviam tomado conta de suas decisões. A Anpof admite como membros plenos apenas doutores, como forma de controle profissional. Tornou-se uma associação entre cursos de pós-graduação, que apoiou a criação de grupos de pesquisa, com incentivo através de bolsas de estudos. Estes grupos obtiveram desenvolvimentos extraordinários. Isso se refletiu e passou a repercutir na ciência e na filosofia. A Anpof se tornou grande e hoje reflete o desenvolvimento da filosofia no Brasil, sendo respeitada e reconhecida.

  1. Quais são os maiores desafios para fazer a tradução da obra de Kant?

 

Bom, em primeiro lugar, penso que é preciso conhecer a fundo sua filosofia, para saber em que sentido Kant usava certos conceitos em épocas diferentes. Agora estou traduzindo “Reflexões sobre Antropologia”, que são anotações pessoais dele de várias épocas e isso revela que de acordo com épocas diferentes Kant mudava alguns conceitos. Se não soubermos em que época ele usava tais conceitos, traduzimos mal. Outro desafio é conhecer os antecedentes da terminologia de Kant. Outro fato que contribui é saber latim, pois ele também escreveu muita coisa em latim durante certa época. Isso facilita a tradução para o português, pois este é uma continuação do latim. No começo, o maior desafio era escolher o melhor sentido para suas palavras. Era confuso. Hoje é preciso arriscar uma interpretação, ser filosoficamente competente. Entendi que a tradução é uma interpretação. Agora me dei conta de que essa dificuldade deve ser superada, que é preciso arriscar-se. Mas conscientizar também que devem ser estudadas as obras originais, para que se encontre a sua interpretação, e se faça uma filosofia melhor a partir da original.

  1. E, para finalizar, professor, diante de toda a sua trajetória, não poderíamos deixar de perguntar: por que Kant?

 

Quando estudava na Universidade no Rio Grande do Sul ganhei uma bolsa de estudos do governo italiano. Havia só uma bolsa, foi sorte eu ter conseguido. Conheci Kant por acaso, quando um professor de lá da Itália propôs que eu estudasse o tema o transcendental em São Tomás de Aquino, o que me levou a Kant. Considero Kant o filósofo mais fecundo, da História, claro, sem excluir Platão e Aristóteles. Ele fez as idéias “baixarem à Terra”,  e que não passassem de meras especulações. Ele forneceu, na época moderna, uma ética e teoria do conhecimento insuperadas. Minha vinculação com Kant começa com minha saída para o exterior, mas se consolidou com as traduções de sua obra, por que me levaram a pensar a partir de algumas delas. Hoje eu não tenho nenhum medo de dizer, contra alguns que dizem que quando se está gostando do pensamento de algum filósofo deve-se afastar dele para que não se distorça a filosofia, que a proximidade com Kant foi muito positiva. É possível maravilhar-se não só com sua filosofia, mas também com sua vida, na modesta Königsberg, que foi extraordinária, rejeitando o preconceito de que sua vida foi socialmente limitada. Sua visão da vida nos inspira a viver melhor.

Entrevista concedida aos alunos Helder Leandro Kotecki, Emmanuelle Pesch Rodrigues e Karine Willuwert e à professora Renata Tavares, do curso de licenciatura em Filosofia da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória – PR, em 02 de abril de 2009, nas dependências da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Agradecemos em especial ao aluno Helder pela transcrição.

Fotos:


Prof. Valério em Palestra proferida na FAFIUV em 05 de junho de 2009;


Com alunos de Filosofia da FAFIUV

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