União da Vitória Antes dos Trilhos e dos Trens

A historiografia vem mostrando que a busca de “outras histórias” tem favorecido estudos que contemplam a história das cidades, ampliando os saberes históricos. Outras histórias, em outros tempos: temporalidade e experiências e que foram marcadas pelas mudanças e contrastam com o tempo das permanências e das memórias.
O desafio e a curiosidade, inata a todo historiador, levou-me a procura de “outras histórias” sobre Porto União da Vitória, a partir do questionamento: e antes dos trens? Como deslocavam-se os moradores? Como atravessavam o Rio Iguaçu? Tantas dúvidas... Tantas questões! Tantas transformações!
Os estudos realizados pelo historiador Riesemberg foram fundamentais para redescobrir outras histórias e responder algumas indagações. Riesemberg (1978, p. 61) mostra quão relevante foram as canoas do Iguaçu, que auxiliavam na passagem das mercadorias e nos trabalhos da travessia do gado, após a descoberta do vau em 1842. A principal função dos canoeiros era transportar sal do Porto das Areias (Porto Velho) até Porto da União e dali as mercadorias eram levadas pelos tropeiros aos campos de Palmas: “Na subida carregava charque, erva mate e couros, gêneros da produção das fazendas. A carga era acomodada no bojo da canoa, de forma que ficassem alguns vãos entre as cavernas, a fim de esgotar a água que porventura se acumulasse dentro da embarcação, [...]”.
A canoa foi um novo referencial na vida dos moradores e demandou período de adaptação. Aos poucos, com mais experiência e corrigidas as falhas iniciais, eles organizaram melhor o roteiro de viagem, criaram outro tipo de canoa, com melhor manejo, segurança e resistência e mais adequada àquele trabalho. Assim, conseguiram garantir o transporte da erva-mate e sal através de 50 léguas de rio, até o estabelecimento da navegação a vapor, em 1882. A partir daí, o transporte por canoas ficou restrito “[...] aos pequenos percursos e aos períodos de grandes estiagens. Mas então já haviam se escoado mais de 30 anos de tráfego contínuo entre o Porto das Areias e o Porto da União” (RIESEMBERG, 1978, p. 63).
O mesmo autor informa que, ainda em 1890, algumas pessoas pagavam impostos sobre as canoas que mantinham no Rio Iguaçu para o transporte de mercadorias entre Porto da União e Porto Amazonas e para a travessia das pessoas no Rio Iguaçu. Tão significativa na história local, resta-nos um exemplar que se encontra exposta na Praça Campolim Ramos, no bairro Navegantes.
O uso de balsas também foi significativo no cotidiano da população de Porto União e União da Vitória. Usadas para transportar passageiros e cargas de maior peso, na travessia do Rio Iguaçu. Nos apontamentos de Cleto da Silva (1933) está registrado a presença delas desde 1885. A pesquisa de Melo Junior (2001) constata sua permanência nos anos de 1933 e 1950, portanto, assim como os vapores, foi anterior e contemporânea do trem nas “Gêmeas do Iguaçu”.

Canoas, balsas e vapores são referenciais importantes para a construção da história da cidade, pelo que representam com o surgimento de novas profissões, novos costumes, avanço na economia e melhoria nos transportes via Rio Iguaçu.
Nos estudos de Riesemberg (1978) constata-se a vantagem do estabelecimento da navegação a vapor, favorecendo e barateando o transporte de produtos até então feito utilizando-se animais. Além disso, motivou as autoridades para a construção de uma estrada de rodagem que ligasse Porto de União a Palmas, considerando que o transporte era feito em lombo de animal, por picadas de difícil acesso. Em 1904, inaugurou-se o primeiro serviço de diligência, entre a Vila de União da Vitória e Palmas, em contrato firmado entre o Sr. Augusto Riesemberg e o governo do Estado.
O autor esclarece que esse serviço, até março de 1905, só se estendia até a Jangada, tendo em vista a precariedade da estrada dali para frente. “Desta data em diante foi que, certamente, se prolongou até Palmas, após a construção da ponte sobre o rio Caldeiras e a execução de vários reparos na estrada velha”, facilitando o acesso por ela. (RIESEMBERG, 1978b, p.55).
O contrato previa o serviço de diligências entre a vila de União da Vitória e a cidade de Palmas, durante oito meses, oferecendo uma viagem semanalmente. Os carros utilizados (ônibus) deveriam ter, para esse serviço, acomodações para seis pessoas. Partiam de União da Vitória, nas segundas-feiras, às 8 horas da manhã, durante o verão e às 9 horas no inverno, chegando a Palmas na quarta-feira.
Riesemberg (1978, p. 56) descreve a diligência: “Os veículos da primeira linha de diligência entre União da Vitória e Palmas pertenciam ao tipo chamado “landau”, usados então naqueles serviços. Eram carros confortáveis, de molejo flexível e bancos estofados, podendo ser inteiramente fechados, com duas portas laterais envidraçadas. Eram munidos de lanternas, para as viagens noturnas. A capacidade era para quatro passageiros, podendo levar mais um na boléia, ao lado do cocheiro. A tração era feita por seis cavalos, mudados ao longo do caminho, em pontos certo”. Podemos avaliar as dificuldades encontradas nessas viagens, no entanto, esse serviço foi um importante melhoramento para a região, ao mesmo tempo em que forçou o andamento nas obras da estrada de rodagem, a qual só ficou concluída em 1907.Estas “outras histórias” mostram as ações, os costumes e o viver da população união vitoriense, no período que precede à chegada do trem, deixando “marcas” que ainda permanecem vivas no imaginário popular da cidade que ora completa 121 anos.
Parabéns União da Vitória!  

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